sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

A ambiguidade do olhar... e do pensar

Para começar, uma pintura de Caravaggio: Santa Catarina de Alexandria (1598).
O que pensa da representação? Acertada? Interessante? Piedosa? Banal? Como você a vê?

Antes de responder é bom saber quem era Catarina de Alexandria. Nasceu no fim do século III no seio de uma nobre familia de Alexandria (Egito). Dotada de grande inteligência logo se destacou alcançando o nível dos grandes poetas e filósofos da época. Uma noite teve uma aparição de Cristo e se converteu, escolhendo também o celibato.

Com ocasião de uma festa pagã, o imperador Maximiano visitou Alexandria, e Catarina tentou convertê-lo ao cristianismo. Ele ficou com raiva e, para pô-la à prova impôs-lhe uma discusão com 50 sábios aos que trataria de converter. Catarina venceu. Maximiano fez executar os sábios e ordenou que Catarina fosse torturada numa roda com facas. Milagrosamente as rodas se quebraram... então o imperador ordenou que a decapitassem.
Até aqui a história. O que agora pensa? Vê nela a nobre e sabia mulher oriental representada com os instrumentos do martírio? É uma virgem pálida e angelical, ou uma santa que transpira poder?

E se soubesse que quem serviu de modelo era Fillide Melandroni? Fillide era uma linda mulher, famosa em Roma, corajosa, que gostava de freqüentar ambientes sociais elevados... e disponível para quem pagasse o preço justo: o que na Itália, nessa época - e ainda hoje -, se conhecia com o nome de cortigianaComo está vendo o quadro depois disto?

O crítico de arte Simon Schama escreveu: "Era o extremo oposto da representação costumeira da santa como uma virgem pálida e angelical. A imagem transpira poder e até mesmo perigo. Os olhos dessa Catarina brilham tanto quanto a arma. Contudo, se fosse pressionado, Caravaggio poderia atribuir qualquer suspeita de indecência à obtusidade de quem o questionasse. Por que o pescoço da mártir está a mostra? Para lembrar aos devotos que ela foi decapitada, claro! Por que ela está suntuosamente envolta em veludo e damasco bordado, mas condizentes com o tipo de traje que Fillide usaria para receber seu amante ou protetor, o bem-nascido Giulio Stronzi? Porque Catarina era uma princesa, a imagem da calma resoluta, não do terror - em outras palavras, uma pessoa com que se podia contar!" (O poder da arte, p. 43). O que você concluiu?

6 comentários:

  1. Pe. Xavier,
    Parece-me que a representação é acertada. As vezes, ou melhor, muitas vezes vemos as pessoas que são boas ou com ideais altos representados com cara "melosa" ou de pessoas bobas. Penso que as pessoas que realmente tem valor são normais, tem pontos positivos e outros que precisam ser corrigidos. Para mim as pessoas que defendem um ideal são fortes.

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  2. Adorei. Já tinha escrito sobre Catarina aqui: http://www.narajr.net/2009/11/cinco-vitorias-de-santa-catarina-de.html

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  3. João Carlos,
    achei bem interessante a sua referência à "Legenda Aurea" com a troca do negativo (cinco provas em que a castidade sucumbe), pelo positivo (cinco vitórias de Santa Catarina).
    Na verdade, eu sempre tinha reparado muito no aspecto intelectual da santa... quase esquecendo do seu modelo de castidade.
    Com isto, a obra de Caravaggio ganha força. E o pensamento, também.

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  4. O hábito não faz o monge, mas fá-lo parecer de longe.

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  5. Olá , acabei de ver a foto e ler o texto sôbre Santa catarina e confesso não havia lido nada a seu respeito, mais assim que vi a foto percebi no seu rosto algo forte e determinado. Os olhos me chamaram a atenção. Vou entrar no link do João Carlos para conhecer melhor essa Santa.
    Abraços
    Marilene Queiroz

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  6. Se quiser uma breve informação sobre Santa Catarina de Alexandria pode encontrá-la (em italiano) neste link:
    http://www.santiebeati.it/dettaglio/79050

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