segunda-feira, 12 de março de 2012

A virtude da fé

Para quem estiver interessado, em Didascália de Teologia começou uma série sobre as três virtudes teologais. Em primeiro lugar foi publicada uma introdução sobre a importância dessas três virtudes na prática do cristianismo; logo depois, um texto de tipo esquemático, sobre a virtude da fé.

Aqui estão os links:
http://didascaliadeteologia.blogspot.com/2012/02/crescer-na-vida-crista-por-onde-comecar.html

http://didascaliadeteologia.blogspot.com/2012/03/virtude-da-fe.html

sexta-feira, 9 de março de 2012

É possível viver sem ira?

O Evangelho do próximo Domingo (III Domingo de Quaresma, ciclo B) narra como Jesus expulsa os vendilhões do Templo de Jerusalém. Os diretores de cinema adoram a cena, talvez por ser agitada e pela atitude de Jesus, que parece ter um comportamento contrário ao amor que tanto pregou. O cardeal Spidlik escreve que “a cena, porém, deixa os Padres da Igreja perplexos”. E explica a razão a partir do contexto cultural em que se encontravam, pois, na época, muitos defendiam a necessidade da paz estoica, e consideravam a ira como uma paixão perigosa, que expõe o homem a atos desconsiderados. “Se te irritas – escreve um estoico – podes matar tanto uma galinha, como o teu pai”. De aí que os filósofos propunham a prática da apatia, que é o estado anímico que alcança quem dominou a paixão e não manifestou externamente a sua chateação, parecendo ficar sempre inalterado.

El Greco, Expulsão dos vendilhões do Templo (1600)

Com o tempo a reflexão cristã levou a compreender que existem paixões orientadas ao bem e outras ao mal... e ambas devem se dominar, como se faz com os cavalos que puxam uma carroça. Que lugar ocupa, pois, a ira? Os Padres respondem com simplicidade: é má a ira que vai contra Deus, é boa a que vai contra os demônios. Em outras palavras: será boa na medida em que combata o que se opõe a Deus.

Comentando a cena evangélica, Santo Agostinho explica que os vendilhões tinham uma função que, em princípio, era boa: providenciar as vítimas necessárias para os sacrifícios. Contudo, eram dominados pelo o afã de lucro com as coisas santas, que é um tipo de avareza. E fazia uma interpretação alegórica da cena: os vendilhões são “aqueles que na Igreja procuram os seus próprios interesses e não os de Cristo” (Coment. In Iohann. 10, 6). Deste modo a ira de Jesus ficava plenamente justificada.

Uma cena para que cada um continue a meditar... também porque nenhum de nós é Cristo. E o que para Ele era fácil (julgar o bem e o mal) para nós é mais complicado e exige que, antes de agir, peçamos discernimento a Deus.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

As cinzas da Quaresma


O dia que marca o começo da quaresma é conhecido como quarta-feira de cinzas, pois o padre impõe cinzas sobre a cabeça dos fiéis dizendo as palavras “lembra que és pó e ao pó hás de voltar”. É um gesto que transmite a ideia de penitência já nos textos do Antigo Testamento. Cobrir a cabeça de cinzas e vestir uma túnica de tecido áspero chamada cilício eram sinais externos de arrependimento pelos próprios pecados. Assim, por exemplo, Judite antes de ir ao encontro do inimigo Holofernes, “entrou em seu oratório, pôs o seu cilício, cobriu a cabeça com cinzas e, prostrando-se diante do Senhor, orou” (Judit. 9, 1).

Essa prática difundiu-se também entre os cristãos. Alguns penitentes da Idade Média se apresentavam ao confessor que lhes entregava um cilício coberto de cinzas para que o usassem como manifestação externa do seu arrependimento. Posteriormente o costume se difundiu entre todos os cristãos, leigos e sacerdotes, como sinal de humildade e reconhecimento das faltas cometidas.  

Atualmente muitos desconhecem o significado destas práticas penitenciais, mas a Igreja continua a pedir aos fieis manifestações concretas de austeridade e arrependimento pelos pecados cometidos. No fim das contas, ao morrer vamos levar apenas aquilo que tenhamos feito por Deus e pelos homens.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Maria, estrela da manhã

Num comentário ao anterior post, Alberto falava do título "estrela da manhã", que se aplica à Virgem Maria. Não é possível falar disso em poucas palavras. Contudo, para compreender melhor esse significado convêm ter presentes dois aspectos.

O primeiro é em relação a antiguidade do título. A expressão "Stella matutina" (estrela da manhã) encontra-se no "Llibre Vermell de Montserrat", uma recopilação de músicas escrita no século 14. Em particular, na composição intitulada "Polorum Regina".
"LLibre Vermell", Polorum Regina (com a invocação "stella matutina")
No Ângelus do dia 6 de janeiro de 1988 , o Papa João Paulo II comentava o sentido desta expressão, e de outras semelhantes:
Maria precede cronologicamente a vinda do Verbo encarnado no mundo; e também precede a nos, discípulos do Verbo, do ponto de vista da santidade e da fé no Verbo, Filho de Deus. 
Maria é a “estrela da manhã” que precede a aurora e o “sol de justiça”, Cristo Senhor nosso. Antes de que Jesus falasse de si mesmo e da sua missão, Maria falou dEle para os que vinham visitar o menino, e que ficavam admirados e surpresos ao perceber o que Deus tinha feito para salvar Israel e a humanidade toda. 
Maria é, segundo a invocação de um antigo hino litúrgico, a “estrela do mar”. A sua fé é como uma luz que guia entre as ondas e tempestades deste mundo, e que ilumina as trevas da nossa ignorância, esclarecendo o erro, e nos guiando à verdade, que é Cristo. 
Maria é como a estrela de Belém, que mostra onda está o Filho de Deus, presente entre nós, para libertar o homem da morte e do pecado e fazê-lo filho de Deus, “Deus por participação”.
Maria, como estrela de Belém, conduz todos para Cristo, tanto os que estão afastados, como os que ficam próximos; tanto os que fazem parte de Israel, como os que não; tanto os que já acreditam, para que creiam mais, como os que ainda não creem, para que finalmente cheguem à fé.  
Finalmente, mais uma nota explicativa. A expressão "estrela do mar" (no original "Stella marina") que o Papa se referia encontra-se já no hino "Altissima Luce", uma composição melódica que faz parte do "Laudário de Cortona", da segunda metade do século 13.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Carnaval e Cristianismo

No ano 1988, J. Ratzinger colaborou numa obra coletiva intitulada "Suchen was droben ist" (Procurar o que está no alto) onde escreve sobre o carnaval. Mergulha nas suas raízes, que descobre na festa judaica Purim, que comemora a salvação de Israel dos persas (aliás, por obra da rainha Ester), e na festa pagã centro-europeia da expulsão do inverno.
Máscaras de carnaval. Lucerna, Suiça
 A expulsão do inverno associava-se à expulsão dos demônios, que, com o frio, ameaçavam a fecundidade da terra. Com o cristianismo as máscaras usadas na celebração perduraram, mas mudou o significado: Converteram-se em burla dos medos que, no paganismo, ameaçavam o homem. Em outras palavras, passaram a ser símbolo de libertação do mal.
Carnaval de Carnaval Mohacs Buso (Hungria)
Contudo, as coisas, hoje, mudaram. Parece que o objetivo é querer se libertar de Deus, um "liberou geral" até que voltem os tempos em que convêm pensar de novo nas coisas do alto. Mas, escreve Ratzinger, "não traz isto como consequência que nos vejamos entregues de novo aos deuses, aos poderes do negócio, da avareza, da opinião pública?".

Não será que ainda devemos descobrir que só Deus, onipotente, pode ser o fundamento da nossa liberdade?

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O significado da cruz na Missa

Num texto publicado em 1978, o cardeal Ratzinger explicava o significado que tem a cruz que se coloca sobre o altar (ou perto dele) durante a Missa.

Em primeiro lugar lembrava que durante séculos as igrejas foram construídas de modo que o seu eixo longitudinal seguisse a direção leste-oeste; em particular, o abside (isto é, a parte onde se coloca o altar) estava mais perto do leste, pois a fé ensina que quando Cristo vier pela segunda vez o fará desde esse ponto.

Por isso, escreve Ratzinger, "nos locais de reunião dos cristãos colocou-se na parede oriental o sinal de cruz, símbolo de Cristo que retorna. Mais tarde, essa cruz simbólica transformou-se em cenas da paixão histórica de Cristo, até o ponto de que a idéia escatológica desapareceu quase totalmente da cruz. De ai que, a rubrica que impõe a presença da cruz sobre o altar tem como fundo esta tradição cristã primitiva. A cruz do altar pode ser vista como o último resíduo da orientação para o leste que permaneceu até hoje” (Joseph Ratzinger, Sul problema del’orientamento nella celebrazione (1978); em Opera Omnia, Vol. 11, p. 532).
Igreja de São Francisco, Arezzo (Italia)


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Erros e justificativas

Anton Tchekhov foi escritor russo que faleceu a começos do século XX. Formou-se em medicina e exerceu a sua profissão médica numa pequena cidade russa. Era muito observador e bom escritor de breves narrações (ou contos, se se prefere). Foi tão popular que deixou a profissão médica para dedicar-se à literatura.

Num dos seus contos, intitulado "Uma desgraça" mergulha no complicado mundo das paixões humanas e da consciência. A história é simples... poucas páginas... vale a pena ler... e comentar.

(Sugiro baixar o arquivo PDF para ler com mais comodidade)
Anton Tchekhov, "Uma desgraça"